Arquivo Pessoal Ricardo Moura
O árbitro deve estar bem condicionado fisicamente, pois a fadiga pode prejudicar a tomada de decisão durante a partida.
Juliano Fernandes da Silva*
Para que uma partida de futebol seja realizada, deve haver a presença de um árbitro, o qual deve conduzí-la com eficiência a partir da colaboração de dois árbitros assistentes.
Apesar da importância da arbitragem no futebol, a maior parte dos estudos com esta modalidade faz referência aos jogadores, negligenciando a importância e a função do árbitro. Embora os jogadores e árbitros de futebol estejam expostos a condições ambientais similares, eles representam diferentes populações, pois durante uma partida seus desempenhos são distintos, envolvendo específicas exigências físicas e cognitivas.
Em 2011, publicamos um artigo no site Universidade do futebol discutindo sobre especificidade no futebol, onde concluímos que para ser específico nesta modalidade os treinadores necessitam estipular “guias” que orientem a tomada de decisão dos atletas.

Além disso, o treinamento dito “físico” poderia ser pensado enquanto meio auxiliar de preservação do “agente” responsável por executar uma ação que já se estabeleceu previamente no sistema nervoso central (SNC), ou seja, as ações físicas do corpo do atleta estão dando interpretações ao que já ocorreu previamente no SNC, ou seja, o físico não prejudicaria as ações realizadas.
No entanto, quando falamos de jogadores de futebol, o objetivo é único, vencer. Por outro lado, quando nos referimos aos árbitros de futebol os objetivos são dois: realizar o jogo de forma eficiente e ser aprovado nos testes físicos.

Afirmo isso, pois a preparação física deve ser um dos pilares da arbitragem como preconiza a Fédération Internationale de Football Association (Fifa), para que este execute suas funções de forma natural, em que a maior e única preocupação durante a partida seja arbitrar.
Para isso, o árbitro deve estar bem condicionado fisicamente, pois a fadiga pode prejudicar a tomada de decisão durante a partida, e o percentual de decisões corretas tende a ser maior quando os árbitros estão próximos da jogada (entre 11 e 15 metros) (MALLO et al., 2012). Preocupada com isso, a Fifa e as entidades subordinadas a ela aplicam periodicamente os testes físicos para verificar o nível de condição física desta população.
De forma geral, estes testes não refletem as situações que ocorrem nos jogos. Assim, os árbitros de futebol precisam ter dois tipos de treinamentos específicos, um para as situações de jogo e outro para o teste físico. Isto ocorre devido a dificuldade de se encontrar um teste que reflita exatamente o que ocorre no jogo.

Considerando o esforço e a competência dos profissionais que atuam e colaboram com a Fifa é possível que com o decorrer dos anos os testes se aproximem mais das situações de jogo, porém nunca serão iguais e sempre continuarão sendo aplicados. Assim, resta ao árbitro continuar treinando para dois objetivos.

No que se refere a demanda de jogo são escassos os estudos sobre o padrão de movimento da arbitragem brasileira durante as partidas, visto que a maioria dos trabalhos foi realizada no futebol europeu. Castagna et al. (2007) demonstraram que os árbitros percorrem em média distâncias que variam entre 9 e 13km, enquanto que a frequência cardíaca média varia entre 85 e 90% da FCmax durante a partida.

No entanto, tais respostas são influenciadas diretamente por diversas variáveis como tipo de jogo que é desenvolvido pelos atletas, nível técnico, tático e o ambiente que a partida é realizada. Desta forma, para que um árbitro treine de forma específica é necessário uma análise precisa sobre a demanda de esforço no campeonato que estes atuam.

Considerando as diferenças relatadas entre estilo de jogo brasileiro e europeu, se torna urgente o conhecimento da demanda de esforço dos árbitros brasileiros em competições nacionais, estaduais, assim como, nas competições internacionais que os 10 árbitros do quadro da Fifa atuam. Enquanto isso, temos que nos basear principalmente em estudos de outros países.
Trabalhos realizados em sua maioria com árbitros europeus tem demonstrado que a arbitragem de futebol se trata de uma atividade com alto padrão intermitente, em que os árbitros mudam o tipo de atividade a cada 4 s, totalizando em média 1268 ações diferentes em uma partida (KRUSTRUP et al., 2001).

Analisando os subsídios para prescrição de treino referente às situações do jogo é possível perceber que apesar do elevado volume percorrido durante uma partida por um árbitro (9 a 13km), apenas um pequeno percentual (<20 alta="" como="" crit="" da="" definir="" dependendo="" dist="" em="" encontrar-se="" es="" font="" intensidade.="" intensidade="" ncia="" nesses="" para="" percorrido="" podendo="" rio="" total="" utilizada="" valores="" varia="" velocidade="">

Partindo deste pressuposto, sugere-se que um árbitro que está preparado para o teste Fifa (24 X 150m – volume de 3600 m) também execute com facilidade as demandas de jogo. Porém, isso não é tão simples, pois a maioria das ações de alta intensidade realizadas pelos árbitros tem durações inferiores a 4 s, neste sentido, ações de 150 m não são especificas. Por que não são específicas?

A principal explicação é que se observa elevadas discrepâncias no custo energético nos diferentes modos de corrida (linha reta vs com mudança de direção) principalmente nas velocidades mais altas que 4m.s-1 (i.e. 13.6km?h-1), quando se usa distâncias curtas (<20m 2010="" 2013="" a="" acelerar="" adicionais="" al.="" aumentam="" cios="" com="" de="" desacelerar="" devido="" di="" dire="" e="" es="" et="" exerc="" fisiol="" font="" gicas="" isso="" mudan="" musculares="" nos="" o="" ocorre="" para="" pois="" prampero="" requeridas="" respostas="" s="">

Neste sentido, para os treinos aeróbios de alta intensidade, sugere-se estimulo e recuperação (1:1, 2:1) de curta duração (ex: 12:12s; 12:6s; 18:12s; 24:12s; 6:6s – com mudança de direção a cada 5-6 segundos) objetivando completar períodos equivalentes de 3 a 6 minutos em cada série. Já o número de séries pode variar de 3 a 8, dependendo da duração da série e dos intervalos.

Nos treinamentos anaeróbios visando às situações de jogo sugere-se em sua maioria a adoção de sprints curtos (<20m a="" alterar-se="" ao="" as="" calibra="" controladas="" correta="" de="" dist="" do="" dos="" drasticamente.="" dura="" e="" em="" entre="" es="" exemplo="" font="" importante="" maiores="" menores="" minuto="" ncia="" o="" objetivo="" odos="" os="" ou="" outras="" per="" pode="" por="" principalmente="" que="" recupera="" rela="" s="" serem="" sprints="" tempo="" treino="" treinos="" um="" utiliza="" utilizados.="" vari="" veis="" visto="">

O principal estudo envolvendo treinamento em árbitros contempla modelos intervalados longos (4 x 4 min and 8 x 2 min) e curtos (16 x 1 min e 24 x 30 s) procurando atingir a zona de FC maior que 90%FCmax (KRUSTRUP, 2001). Esses estão entre os treinamentos mais utilizados por preparadores físicos que atuam com os árbitros atualmente visando desenvolvimento da capacidade de realizar exercício intermitente de alta intensidade, devido principalmente as características comuns ao teste que avalia a capacidade de realizar ações de alta intensidade adotada pela FIFA (24 x 150 m).

Para a melhora do desempenho no teste FIFA (24 x 150m) o desenvolvimento da potência aeróbia máxima apresenta-se como uma alternativa interessante, podendo-se utilizar estratégias como a adoção de um percentual da FCmáx (>90%), ou a adoção de percentuais referentes a velocidade máxima aeróbia determinada em laboratório ou em testes de campo. No entanto, estes tipos de treino precisam ser montados por profissionais capacitados, visto que treinamentos de alta intensidade quando prescritos de forma equivocada são deletérios para performance do atleta.

Considerando o tamanho do nosso país, onde muitos árbitros ocupam até três dias em função de uma partida (ida-estadia-retorno), isso se torna ainda mais relevante. Outro fator a ser considerado é em relação ao volume de treino, pois se o volume do teste em alta intensidade é 3600m (24 x 150) não se justifica a adoção de treinos com volumes altos (>5000 metros) e intensidade baixa. Esses treinos longos além de não propiciarem estímulo suficiente para melhorias da capacidade de realizar exercício intermitente de alta intensidade, ainda necessitam de um maior tempo para recuperação.
No que se refere aos testes de velocidade (6 x 40 m) é necessário o aprimoramento da valência acima citada, complementando com exercícios de coordenação de corrida, potência muscular e aceleração, respeitando os conceitos já discutidos anteriormente para treinamento anaeróbio.


Assim, percebe-se que a calibração de treinamentos específicos para árbitros não é uma tarefa simples, pois é necessário um conhecimento dos profissionais que atuam nessa área do treinamento desportivo no que se refere às respostas fisiológicas, demandas do jogo e também da exigência dos testes físicos aplicados. No próximo artigo discutiremos a especificidade do treinamento físico para árbitros assistentes, visando contribuir para qualificação do treinamento físico destes profissionais.
Referências
Buglione A, di Prampero PE. The energy cost of shuttle running. Eur J Appl Physiol. [Epub ahead of print]. 2013.
Castagna C, Abt G, D’Ottavio S. Physiological aspects of soccer refereeing performance and training. Sports Medicine. 37(7):625-46, 2007.
Dellal A, Keller D, Carling C, Chaouachi A, Wong P, Chamari K. Physiologic effects of directional changes in intermittent exercise in soccer players. J Strength Cond Res, 24(12):3219-26, 2010.
Krustrup P, Bangsbo J. Physiological demands of top-class soccer refereeing in relation to physical capacity: effect of intense intermittent exercise training. Jounal of Sports Sciences. 19(11):881-91, 2001.
Mallo J, Frutos PG, Juárez D, Navarro E. Effect of positioning on the accuracy of decision making of association football top-class referees and assistant referees during competitive matches. Journal of Sports Sciences. v.30 (13):1437-45, 2012.


*Juliano Fernandes da Silva é graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui mestrado em Educação Física pela UFSC na área de Cineantropometria e Desempenho Humano. É membro do grupo de pesquisa do Laboratório de Esforço Físico (LAEF/UFSC) estudando variáveis da fisiologia do exercício relacionadas a avaliação e treinamento de atletas de modalidades intermitentes, principalmente futebol. Atualmente faz doutorado em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina.
Publicado no site - www.universidadedofutebol.com.br
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